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sexta-feira, 28 de abril de 2017

O QUE HÁ DE ERRADO COM NÁDEGAS RELUZENTES?



           Uma cultura grosseira gera um povo vulgar, e o refinamento privado não consegue sobreviver por muito tempo aos excessos públicos. Há uma lei de Gresham que vale tanto para a cultura quanto para o dinheiro: o ruim expulsa o bom, a menos que o bom seja defendido. 
                    Em nenhum outro país o processo de vulgarização foi mais longe do que na Grã-Bretanha: nisso, ao menos, somos os primeiros no mundo. Uma nação até não muito tempo atrás notória pelas restrições de seus hábitos se tornou conhecida pela vulgaridade de seus apetites e por suas desavergonhadas e antissociais tentativas de satisfazê-los. O alcoolismo em massa passou a ser visto em abundância nos finais de semana, no centro de cada uma das cidades da Grã-Bretanha, de modo que viver nelas tem se tornado insuportável até mesmo às pessoas mais humildes. E o alcoolismo caminha de mãos dadas com os relacionamentos grosseiros, violentos e superficiais entre os sexos. A bastardia generalizada da Grã-Bretanha não é sinal de um aumento da autenticidade de nossas relações humanas, mas uma consequência natural do hedonismo sem limites, que conduz rapidamente ao caos e à miséria, especialmente entre os mais pobres. Livre-se das regras, e a discórdia violenta virá em seguida.
                  Curiosamente, a revolução nos hábitos britânicos não veio por meio de qualquer erupção vulcânica das bases; ao contrário, veio como extensão do pensamento da elite intelectual, que começou a desprezar a tradição. Ela ainda age dessa forma, embora hoje restem poucas coisas para se desprezar. 
                    Por exemplo, a lascívia escancarada da imprensa britânica ao tratar das vidas privadas das personalidades públicas - especialmente dos políticos - tem um objetivo ideológico: subverter o próprio conceito de virtude e negar a possibilidade de sua existência. Portanto, negar a necessidade de um comportamento contido. Segundo essa lógica maliciosa, se cada pessoa que visa defender a virtude for pega com as mãos sujas (quem de nós não as teria?), ou se fosse descoberto que ela se entregou em algum momento de sua vida a um vício que se opõe à virtude defendida por ela, então, a virtude, em si mesma, será exposta como nada mais do que pura hipocrisia; por consequência, poderemos nos comportar exatamente como bem entendermos. A atual falta de compreensão religiosa sobre a condição humana - que o homem é uma criatura caída para o qual a virtude é necessária, embora nunca completamente alcançável - representa uma perda, e não um ganho, para uma verdadeira sofisticação da vida. Seu substituto secular - a crença na perfeição da vida na terra por meio da extensão sem limites do leque dos prazeres - não é apenas imaturo por comparação, mas muito menos realista em sua compreensão da natureza humana.
                    É nas artes e nas páginas de nossos jornais que uma incessante exortação para o fim da polidez - o que caracteriza uma cruzada da elite e seu irreflexivo antinomianismo - torna-se absolutamente visível. Tomemos, por exemplo, o caderno de cultura de um exemplar recente do Observer, o jornal liberal de domingo mais prestigiado da Grã-bretanha. Os dois artigos de maior destaque e mais chamativos do caderno celebravam o cantor pop Marilyn Manson e o escritor Glen Duncan.
                    Do cantor pop, a crítica do Observer dizia: 
                              
                              A habilidade de Marilyn Manson para chocar balançou como um pêndulo durante uma ventania. [...] Ele parecia, num primeiro momento, realmente assustador, quando saiu arrebentando de [sua] nativa Flórida e declarou guerra a tudo o que a América média valoriza. Manson conta convincentes histórias sobre fazer felação com cadáveres desenterrados só para se divertir. [...] mas [...] a autobiografia de Manson revela um homem inteligente e engraçado - mesmo que gostasse de cobrir com carne crua suas fãs portadoras de deficiência auditiva enquanto transava com elas. Ele se tornou um artista, em vez de a encarnação do mal. Grupos religiosos ainda se mobilizam e protestam em suas turnês, principalmente aquelas que ecoam um teor nazista. Mas qualquer tolo perceberia que Manson estava chamando atenção para um ponto importante sobre as turnês de rock e o comportamento de massa, como também flertando com o estilo fascista.

                    A autora da resenha - a qual hesita fastidiosamente em usar a palavra "surda" para as portadoras de deficiência auditiva, mas não parece se importar muito se essas fãs estão sendo exploradas em pervertidas gratificações sexuais - faz um grande esforço para informar ao leitor que ela não é atrasada e ingênua como o norte-americano médio, a ponto de achar que todo o espetáculo de Manson é nojento; por exemplo, ao rebater a crítica que se faz quando se usa o nome de um assassino sádico e genocida para triviais propósitos publicitários.
Reagir de uma forma mais crítica significaria afastar-se de sua casta, ficar do lado dos desajeitados e solenes cristãos, em vez de alinhar-se com os adoradores seculares do demônio - embora a determinação de não se chocar com nada, não se opor a nada, seja em si, certamente, uma convenção. Parece que está além do alcance da imaginação e da sensiblidade desse tipo de crítica perceber que as pessoas que realmente lutaram contra o fascismo, que arriscaram suas vidas e que perderam compatriotas ao fazerem isso, ou que sofreram sob o jugo fascista não apenas ofensivo, mas um motivo real de desespero nos últimos anos de suas vidas. Fascismo não pode jamais estar na moda.
                    O "qualquer tolo" da última frase é uma forma sutil de esnobismo e de lisonja intelectual, visando sugar o leitor para o círculo encantado da sofisticada e desabusada elite intelectual - os entendidos e os cognoscenti, que superaram julgamentos e princípios morais (gnósticos), que não se enganam mais pelas meras aparências, e que não condenam segundo modelos ultrapassados de pensamento. São os que se fazem, portanto, imunes em relação a essas insignificantes e opressivas considerações de decência pública...Não faz muito tempo um jornal me pediu que eu fosse a um "espetáculo" a fim de escrever uma matéria sobre um grupo cuja principal atração era o fato de urinarem e vomitarem sobre o público. Eles também agrediam verbalmente as pessoas, chamando-as a todo momento de "filhas da puta". milhares de pessoas assistiram a esse "espetáculo" - na realidade, uma parede de reverberação acústica a despejar um ensurdecedor, eletrônico e discordante barulho pontuado por refrões obscenos - dentre as quais havia centenas de crianças de até seis anos. Para essas desafortunadas crianças, isso não representava uma nostalgie de la boue, mas significava uma total imersão na própria lama, a lama na qual viviam e respiravam, e de onde forjavam sua existência cultural; a alma da qual é altamente improvável que consigam sair. Qualquer tolo perceberia que aquilo não era um espetáculo adequado para as crianças, mas muitos tolos - os pais delas - não perceberam.
                    A entrevista que o Observer fez com o autor, Glen Duncan, foi intitulada "Escuras e Satânicas Emoções", e a entrevistadora se viu "agradavelmente chocada" com o sadomasoquismo do trabalho de Duncan - o que implica dizer que qualquer outro tipo de choque que não fosse prazeroso estaria abaixo da dignidade de alguém da sua casta. "[Ele] ousou penetrar ainda mais fundo na floresta obscura da violência sexual e da crueldade", indo mais longe que outra grande autora da literatura sadomasoquista, Mary Gaitskill - de fato um elogio, uma vez que Gaitskill tem sido aclamada pela crítica por seu "desavergonhado flerte com os tabus" (Oh, quão sedutores eles são, nossos literari, fascinados pelos tabus como moscas pelo esterco), "sua explícita clareza na exposição dos mais sórdidos detalhes". Para essa gente, não existe nada mais chique ao expor a liberdade, a maturidade e o autoconhecimento humanos do que uma pitada de detalhes sórdidos, embora, é claro, talvez você nunca consiga ser suficientemente desavergonhado nem satisfatoriamente sórdido.
                    É preciso esclarecer que a descrição gráfica que o Sr. Duncan faz das práticas sadomasoquistas não pode ser vista como lasciva ou mesmo sensacionalista; que os céus nos protejam de pensamentos "grosseiramente reducionistas": "embora" - falando sinceramente, já que pessoas maduras podem lidar com qualquer verdade - "trata-se de um potencial best-seller para os editores" (como aquelas pessoas que, por exemplo, não consideram o fascismo um tema adequado para uma abordagem meramente comercial. Como o autor diz à entrevistadora, no sentido de consolidar, acima de qualquer suspeita, sua reputação como pensador sério: "Situações de merda acontecem, e eu quis que o narrador soubesse como lidar com situações como essas". Portanto, que fique claro, as cenas sexuais não são gratuitas, muito menos seria o caso de serem meras campanhas publicitárias - e, certamente, tampouco são o resultado da escolha humana (situações de merda não se escolhem; apenas acontecem; é inevitável) - elas levantam, no entanto, importantes questões metafísicas a respeito dos limites do permissível.
                    É possível definir com precisão quando teve início esse espiral decadente da cultura? Quando perdemos de forma absoluta o tato, o refinamento e a compreensão sobre algumas coisas que não podem ser ditas ou diretamente representadas? Quando foi que paramos de saber que, ao dignificar certas formas de comportamento, maneiras e modos de vida por meio de representações artísticas isso implicaria, ao menos implicitamente, glorificá-los e promovê-los? Como diz Adam Smith, há uma porção de ruína em cada nação, e essa verdade se aplica tanto à cultura de uma nação quanto à sua economia. O trabalho de destruição cultural, embora frequentemente mais rápido, fácil e mais autoconsciente do que o trabalho de construção, não é o trabalho de um momento. Roma não foi destruída em um dia. 
                    Em 1914, por exemplo, Bernard Shaw causou grande sensação ao atribuir à personagem Eliza Doolittle a frase "Not bloody likely!" que seria encenada nos palcos de Londres. É claro que a sensação criada na época por essa inócua e mesmo inocente exclamação dependia inteiramente para o seu efeito, da convenção que ela ridicularizava. Mas aquelas pessoas que ficaram escandalizadas com a frase (as pessoas que em geral são consideradas caretas) compreenderam instintivamente que o raio não cai duas vezes no mesmo lugar, e que qualquer outro autor que procurasse criar outra grande sensação no futuro teria que ir muito além do "not bloody likely!". Uma lógica de quebra  de convenção fora estabelecida, de modo que dentro de algumas décadas ficou difícil produzir qualquer nova sensação, a não ser usando-se meios progressivamente mais extremos. 
                    Continua...
Fonte: Nossa Cultura ou o que restou dela, Theodore Dalrymple - É Realizações 

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